Quadrado Textil

Quadrado Textil
Lenço (latin linteum, -i, pano de linho) s.m. Peça de roupa, que consiste num pedaço de tecido, quadrado, com que se abriga o pescoço ou a cabeça.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Simples e Linda

Já vivia na Europa há mais de dois anos. A sua comunicação era bem fluida, embora nunca fugisse às suas raízes. Seu aniversário fora na semana passada, mas só ontem é que Sayuri, sua melhor amiga, já desde a escola primária, chegara. Ficava na casa de uma tia que a recebera nesta viagem.

Como não tinha carro, Asuka pedira-me para fazer de guia turístico e mostrar a zona à sua amiga. Embora tivesse passado o dia a ouvir japonês era, sem dúvida, encantadora a companhia das duas.

Na volta, Sayuri retira da sua mala um belo embrulho feito com um lenço. Era a sua oferta de anos para Asuka.

Aquela forma de decorar os presentes cativara a minha atenção.

Enquanto o presente era lentamente aberto, quase como ritual, não conseguia deixar de olhar para as suas delicadas mãos a abrir o lenço. 

Retirou um livro com capa de caráteres japoneses que eu desconhecia por completo.

Após um grande abraço e uma emotiva conversa, entre as duas, sem perceber palavra, vieram me agradecer o passeio. 

- Posso pedir-te mais um favor? - Perguntou-me Asuka.

- Claro que sim. 

- Importas-te de irmos levar a Sayuri? Já é tarde e ela ainda não conhece os transportes.

- Tenho todo o gosto. Quando quiserem.

- Pode ser agora? 

- Vamos.

Levei as duas e deixei Sayuri na casa da tia.

Voltamos a casa da Asuka.

- Anda. Sobe comigo, para te oferecer um chá como agradecimento pela disponibilidade.

Sentei-me na mesa onde estava o lenço aberto. 

Asuka entrega-me as duas canecas, que coloco na mesa, e volta à cozinha para trazer o bule.

Senta-se ao meu lado e repara que o lenço do presente me atraia a atenção.

- É bonito o lenço. - Afirmou em tom de questão.

- Muito bonito. - Respondi sem deixar escapar demasiado interesse.

Furoshiki.

- Como? - Sem perceber o que me dizia.

- Furoshiki. É uma forma tradicional de oferecer presentes no Japão.   

(Nota: Furoshiki é uma centenária técnica de embrulhar japonesa. Seja para presentes, compras, roupas ou até mesmo móveis - com um tecido quadrado feito de seda, algodão ou fibra e, usando as técnicas de dobragem corretas, é possível embalar quase tudo com estilo e de forma ecológica. Lenços são perfeitos para este efeito.)

- E depois o que fazes com o lenço? - Não resisti perguntar.

- Depende. Guardo sempre. É muito útil. Depois ou uso para embrulhar presentes ou uso como acessório na minha roupa.

- E como o usas? - Subtilmente a prolongar o tema que me provoca.

- Ou no cabelo ou no pescoço.

- Mostras-me?

- …Sim. Um pouco surpresa pelo pedido mas feliz com o interesse.

Rapidamente dobrou em fita e atou na cabeça com um simples nó em cima.

- Que gira… - Comentei logo em seguida, deliciado.

- Obrigada.

- É, de facto, muito útil e bonito. Estou fascinado. - Deixei escapar.

- Estás mesmo? Pensei que não fica bem como nas europeias.

- Estás fantástica. Mas porquê a comparação?

- Elas são mais bonitas. Têm olhos grandes, cabelos naturalmente de outras cores: Ruivos, louros, castanhos mais claros, mais volume e caracóis.

- Podem ter mais variedade mas o cabelo escuro e liso é tão bonito. Não precisas mais variações.

- Estás a ser amigo. - Concluiu sorridente.

- É mesmo o que penso. Eu mostro.

- Como?

- Trazes-me um espelho?

- Posso trazer. - Levantando-se em seguida.

Rapidamente foi e voltou. 

- Aqui está. - Entregando-me o espelho com as duas mãos

- Obrigado. Soltas o cabelo?

- Esta bem. - Retirando o lenço em fita que prendia o cabelo, e soltando-o com os dedos.

 - Perfeita. Agora olha bem no espelho e observa como é bonito, brilhante e sedoso o teu cabelo escuro. Observa bem o perfeito contraste com a tua pele.

- Os teus olhos são simpáticos. - Lisonjeada respondeu. 

- Não dizem mais que a verdade. Podes acreditar.

- Obrigada.

- Podes voltar a colocar o lenço na cabeça? Agora dobrado em triangulo e nó atrás? - Pedi-lhe atrevidamente, mas num contexto que não se notasse.

- Claro. - Abrindo o lenço e dobrando-o em triangulo e atando conforme pedido.

- Está novamente perfeito. Tens jeito para o colocar. Agora olha bem para ti. 

- E o que devo ver. - Curiosa e entusiasmada.

- Repara bem na tua cara tão expressiva, o pequeno e delicado nariz, lábios também pequenos e tão bem definidos e os teus olhos…

- Os olhos gostava que fossem redondos como as europeias.

- Não concordo. A forma é linda, reflete tão bem as tuas emoções, riem contigo, reagem a tudo e são sinceros. Gosto tanto.

- Arigatou gozaimasu... - Deixando escapar um prolongado e sincero agradecimento em japonês, com os seus olhos quase fechados num risquinho.

Surpresa pela minha atenção à sua aparência e o direto elogio, a sua face indiscretamente corava. Certamente não o esperava. Temi ter sido eu um pouco indiscreto não querendo forçar nada para não a deixar constrangida. 

- E a tua pela tão suave e lisa - Não me contive e continuei

- Gostas?

- Bem melhor que a minha pela peluda. - Num jocoso tom para aligeirar o tema.

- …Eu gosto. - Comentou baixinho após inusitado momento de silêncio.

- A serio? - Despertando a minha curiosidade.

- É fofo. Como um peluche. Dá vontade de fazer festas.

- Podes fazer. - Sem resistir ao desejo de uma mulher com lenço.

- Posso? Não faz mal?

- Claro que podes. - Agarrando suavemente a sua mão e colocando sobre meu antebraço.

- É confortável. - Foram as únicas palavras que pronunciou congelada pela timidez.


Envergonhada, desviando o seu doce olhar, apenas me tocava no braço com a ponta dos dedos, mas apreciava a subtil carícia que desenhava sobre a minha pele.

Pontualmente deixava escapar um discreto riso, que não consegui evitar comentar, talvez por provocação.

- Estás a rir? 

- Um bocadinho.

- Então porque?

- O pelo faz cocegas.

- E nem é a zona densa. O peito é muito mais denso.

Percebia-se a curiosidade escondida atrás do tímido riso. Faltava-lhe a coragem para o confessar.

- Tive uma ideia. - Sugeri provocador.

- Que ideia? - Sem perceber a intenção.

- Emprestas-me o teu lenço?

- Sim... - Passando a mão na cabeça, suavemente puxando o lenço para baixo.

Desatou o nó que juntava as pontas e entregou na minha mão e prendeu o cabelo, em rabo de cavalo, com o seu elástico.

Coloquei o lenço cuidadosamente sobre a mesa abrindo-o e, com as mãos,  alisei com precisão. Dobrei minuciosamente em triângulo e, seguidamente, em fita. 

- Tens muito jeito com o lenço. Deves aprender Furoshiki facilmente. - Atenta comentou.

- Penso que sim, mas agora aproxima-te.

Docemente atei o lenço sobe os seu olhos.

Não  ofereceu resistência alguma, notando que apreciava a suavidade do tecido do lenço ao cobrir seus olhos e despertando a sua curiosidade, provocada por esta ousadia.

Levemente peguei na sua mão e, por dentro da camisa, após discretamente soltar alguns botões, coloquei-a sobre o meu peludo peito. 

Suspira tão surpresa como curiosa. A sua respiração torna-se mais intensa e sonora. Certamente não esperava este atrevimento.  

Agora já não desvia o olhar inibido pelo lenço que a venda, mas que, paradoxalmente, a liberta.

Lenta e suavemente, percorre com os seus dedos, todo o meu peito. 

Deliciada, junta, sem pedir licença, a segunda mão alargando a sua exploração a todo o tronco. 

Gradualmente, sentido a imunidade que o lenço atado nos olhos lhe permite, liberta-se de preconceitos e prescinde de limites. Deixa-se guiar apenas pela curiosidade e desejo. 

Ri-se quando sente mais pelo em zonas, em por algum motivo a surpreende, como as axilas ou umbigo. 

Perdida, pede-me com um atrevimento que lhe desconhecia:

- Podes ficar de pé? - Numa voz muito baixinha.

- Claro. Tudo o que quiseres. - Levantando-me e, ao mesmo tempo, deixando cair as calças discretamente no mesmo movimento.

De camisa aberta e apenas de boxers, alarguei o seu campo de exploração.

Desta nem um sorriso. Apenas uma quase predadora vontade de consumir cada momento. Suas mãos descem às minhas pernas, explorando-as ao milímetro, descobrindo cada pilosidade, esquecendo a tímida mulher que me convidou para tomar chá.

Cada movimento é repetidamente executado, como se fosse desenhado e sempre com a mesma suavidade. Adoro vê-la assim curiosa. Posso olha-la indiscriminadamente. O lenço que a venda permite-me não ser detetado nessa deliciosa ousadia. 

Delicadamente coloco as minhas mãos sobre as suas ancas e sob a macia e leve  camisola de malha. Com precisão levanto a sua camisola, muito lentamente desnudando o seu tronco, enquanto sinto as suas discretas contorções ao subir as minhas mãos. Sem um som levanta os seus braços como se me dissesse para não parar. 

A camisola sai por completo. Fica caída sobre o sofá. 

Asuka deliberadamente afasta uma alça do soutien ficando solta sobre o braço. Era fácil perceber a licença que me dava. 

Abraço-a carinhosamente e enquanto sinto o seu tronco procurar o meu aconchego. Os meus braços envolvem-na enquanto cerca o meu pescoço com os seus. Apenas se ouve a nossa respiração. Meticulosamente solto os perniciosos ganchos que fecham o seu soutien. Folgo o abraço para que o soutien caia. Voltamos a nos encostar agora sem nada a obstruir o contacto. Apenas resta o seu colar de pérolas de rio, no seu pescoço, mas sem nenhuma interferência. Pele na pele num longo e fechado abraço. O meu peludo tronco contrasta com a sua sedosa pele. Ambos deliciados pela diferença perdemos a noção do tempo.





(Em breve continua...)



QT







 

 




































quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Voo para Bruxelas

 

Há algum tempo que não teclava com Maria, minha virtual amiga de outra história.

Pelo que sei tem estado muito atarefada no seu trabalho. Sai frequentemente do país. Faz parte da sua profissão. Procurei-a online hoje porque tenho voo marcado para Bruxelas e sei que é o destino frequente no ofício de Maria.

É uma sensação invulgar saber que existe sem nunca ter falado pessoalmente. A minha curiosidade é imensa. E a minha vontade maior. Pelo mistério, pela sua sensualidade, mas, principalmente, pela sua simpatia e gentileza.

Aconteceu, sem planear, a necessidade de ir a Bruxelas. Uma formação, que nem sequer fazia parte do planeamento anual, mas que me indicaram para presenciar. 

Lembrei-me logo de Maria. 

Ansioso por lhe contar e com uma longínqua esperança de uma oportuna coincidência.

Tentei falar com ela, à noite, mas não tive sorte. Não estava online e era a única forma que tínhamos de comunicar.

Após ler algumas notícias, prestes a desligar, um som indica a presença de mensagem.

 

- Olá, que fazes aqui tão tarde? - Perguntou logo de início.

- Olá. Que bom que te encontro. - Devolvi animado.

- Então? O que se passa? - Curiosa por perceber a minha reacção.

- Uma novidade e uma questão.

- Conta-me tudo. - Ainda mais curiosa.

- Tenho um voo para Bruxelas no próximo domingo.

- Sério? A que pretexto? Vais de férias?

- Nada disso. Formação extraordinária.

- Isso é bom.

- Foi imprevista. E tu? - Inquiri de seguida.

- Eu?! Como assim?

- Sim tu. Tens trabalho em Bruxelas nessa altura?

- Até tenho.

- E quando vais? - Insisti quase intrusivo.

- Domingo também. - Respondeu hesitante.

- Que maravilha. O meu voo é TP644 às 14:20. E o teu? - Novamente inquiri demasiado direto.

- Vou ver. - Levando bastante tempo até ter resposta.

- Já sabes? - Com dificuldade em esconder a ansiedade.

- Já sei. - Brevemente respondeu.

- Então? A que horas?

- ...o mesmo! - Após nova espera.

 

Apercebi-me que causara algum constrangimento. O facto é que ainda não nos conhecemos ao vivo, nem nunca nos vimos em videochamada, nem temos contactos para além do email e arrisquei deixá-la desconfortável com esta possível aproximação súbita, ao partilharmos o mesmo voo.

 

- Perdoa-me se fui demasiado intrusivo. - Não querendo provocar mais estragos.

- Não há mal. Apenas não estava à espera.

- Não te preocupes. Se não nos encontrarmos não fico desiludido.

- Obrigada.

- Posso partilhar algo que me passou pela cabeça?

- Claro.

- Algo do género: se a dado momento quiseres que te possa identificar sabes que fazer. 

- Um lenço. - Rapidamente percebeu a sugestão.

- Assim viajas incógnita se preferires.

- Pode ser. Mas se decidir não te digo se uso. - Provocadora deixou no ar.

- É justo.  Perverso, muito perverso, mas justo. - E deixou-me, de imediato, com borboletas na barriga.

- Logo se vê o que acontece. - Insiste em provocar

- Já fiquei curioso.

- Eu sei.

 

Não faltavam muitos dias para o voo. Era no final desta semana. E, entretanto, não nos encontramos virtualmente.

 

Chego a domingo e levanto-me da cama, após uma noite intermitente, num rodopio de questões e ansiedade: 

Se Maria, de facto, viria de lenço? 

Se, mesmo assim, a conseguia identificar? 

Se, durante esse voo, com cerca de 200 pessoas e estimadas 100 mulheres, ficaria o meu radar ligado verificando cada uma delas?

Se nos encontrássemos o que sucederia em seguida?

 

Depois de almoçar e de arrumar o trólei, era hora de ir para o aeroporto.

À entrada não consigo deixar de pensar onde e como estará Maria.

 

Não sei se era da atenção, mas aparentava que hoje havia um maior número de mulheres a usar provocadores lenços. Tentar detetar discretamente não era nada fácil. Tentar desligar ainda mais complicado.

Até à sala de embarque, passaram alguns lenços no pescoço e, em menor número, em fita no cabelo, atados na mala, na cabeça, à pirata ou em triangulo à camponesa. Vários foram identificados, mas nunca a portadora.

Agora sentado e só com as passageiras deste voo, no meu radar, o mistério era mais limitado, ainda assim, não era nada fácil. Tento excluir quem não corresponderia à imaginária imagem que tenho de Maria e faixa etária. Só consigo eliminar as adolescentes e as idosas. Mais tarde reparo que é possível eliminar as que identifico serem estrangeiras.

Já reduzi o número a duas. O meu problema é como saber caso, efetivamente, não se importe de me encontrar ao vivo.

Sempre consegui observar com total discrição mas, mesmo assim, tenho todos os cuidados em faze-lo sem provocar nenhum constrangimento. 

Sem ter sucesso na resolução deste perverso mistério entro no avião.

Sentado a apertar o cinto reparo que, quatro filas à frente, está a ser colocado um trólei de viagem no compartimento superior, escapando uma ponta azul de um lenço atado na pega. Só podia ser Maria, mas a incerteza impede-me de perguntar para não causar algum desconforto a uma pessoa que pode ser totalmente estanha.

Não consigo desviar a atenção. Momentaneamente virou-se, sem que eu perceba se fora descoberto.

Após se apagar o indicador dos cintos não consegui resistir a me dirigir à frente do avião para, ao voltar, passar subtilmente por perto. 

Tentei, o mais discretamente possível, olhar incógnito, mas, com um olhar pelo canto do olho e um ténue sorriso fui detetado sem esforço.

 

À saída do avião, ainda no corredor da manga, agora com o lenço casualmente atado no pescoço, permitia-me certificar que era mesmo ela. 

 

- Olá. - Cumprimentei algo atrapalhado.

- Olá - Respondeu sem hesitar.

- Finalmente. - Ainda com falta de palavras para esta invulgar situação.

- Gostas? - Passando os dedos pela ponta do lenço.

- Muito. Gosto muito. De tudo - Completamente derretido com a charmosa provocação.

- Tudo mesmo? - Procurando confirmação

- De tudo mesmo. - Direto, mas sem quer dar graxa.

- Obrigada. - De aberto sorriso. Deixando-me mais à-vontade.

- Em que zona é o teu hotel?

- Não é longe do centro. E o teu?

- Creio ser por aí.

 

Após verificarmos que os hotéis não eram longe um do outro, entendemos partilhar um UBER. O motorista era de longe, permitindo-nos falar sem reservas.

Em pouco tempo a hesitação inicial dissipava-se e sentia que havia alguma química, transportada das nossas conversas online. A gentil presença de Maria rapidamente facilitava o desbloqueamento das reservas iniciais.

 

- Como me detetaste? Fui demasiado óbvio? - Ligeiramente preocupado com o atrevimento.

- Podes ficar descansado que se eu não soubesse nunca te teria detetado. 

- E eu nunca me teria levantado. Ainda bem que não te assustei.

- Nada. Pareces simpático.

- Obrigado. Espero não desiludir.

- Então gostaste mesmo do lenço que trago? Escolhi bem?

- Adoro. Tão sensual! Muito bem escolhido. Ficas deliciosamente sedutora.

- Apenas com um lenço chegou para tanto? - Curiosa

- Sim. Um lenço sobre uma pessoa encantadora. Faz mesmo muito.

- E o que farias com este lenço? - Provocando acutilante, como fazia nas nossas conversas online.

- Acho que não resistia a pôr-te na cabeça. - Sem querer me esticar

- E depois? - Mantendo a provocação

- Depois era capaz de te por sobre os olhos. 

- E depois? - Sem me deixar fugir

- Fazia-te uma massagem.

- Onde?

- Nos pés - Contendo-me por temer ceder à vontade e ir longe demais.

- Nos pés!? Por essa não esperava. - Rindo-se da minha timidez.

- Sim, nos pés. Onde começam os dedos e acaba no pescoço. - Para não ficar aquém da provocação.

- É um conceito invulgar de pés. Deve ser bom. - Subtilmente sorrindo.

 

A curta viagem terminara e saímos do UBER junto ao seu hotel. Depois vou a pé para o meu.

- Estava a pensar ir ao ao meu hotel e tomar um banho. Daqui a uma hora e meia se nos encontrássemos aqui íamos comer alguma coisa. - Sugeri cheio de vontade de partilhar mais uns momentos com Maria.

- Estou cansada, mas vou ter de comer. Acho que sim. Fica combinado.

 

Ao fim da hora e meia, precisamente, já estava à sua espera à porta do seu hotel. 

Pouco depois chegou, mais encasacada, porque a noite em Bruxelas é fresca, e com o lenço no pescoço agora com duas voltas para ficar melhor resguardada.

- Vamos? - Convidei logo à sua chegada.

- Vamos sim. - Prontamente respondeu.

- Algum local em mente? - E não conheço bem a restauração daqui.

- Sim, tenho. Pode ser uma casinha de saladas que não é longe. Só queria algo leve.

- Acho muito boa ideia. Também não preciso mais que isso a esta hora. E estás muito gira. - Não resistir dizer.

- Obrigada. 

 

Sentados e servidos calmamente jantamos. 

- Então gostas desta forma? - Passando os dedos pelo lenço, procurando confirmação, sabendo perfeitamente que me provocava.

- Muito. Está tão bem posto. Ficas mesmo gira e sensual.

- Bigada... - Timidamente sorriu

- Andei a imaginar-te de lenço sempre que te escrevia. 

- E como foi? - Como sempre com alguma subtil marotice.

- Muito erótico. Foi libertador contar-te o meu segredo.

- Era intenso.

- Era, mesmo estando distantes.

- É muito bom estar aqui contigo após todo o tempo.

- Um dia havia de acontecer.

 

Não ficamos muito mais tempo e acompanhei-a ao hotel.

À chegada, não me apetecia despedir logo e tinha esperança de poder estar mais um pouco mas faltava a coragem de o dizer sem me ser intrusivo.

 

- E a massagem dos pés? - Sarcasticamente dando-me uma oportunidade.

- Quando quiseres. Tenho todo o gosto.

- Quero. Assim cansada até pode saber bem. 

- Acompanho-te? - Um pouco hesitante.

- Sim.

 

Calados subimos até seu quarto.

Lenta e cordialmente ajudo-a a tirar o pesado casaco e penduro juntamente com o meu.

Puxo uma cadeira para a frente da cama. Acompanho-a e sento-a de frente para a cadeira onde me sento eu.

Suavemente retiro as sua botas, uma de cada vez.

Olhando-me fixamente nos olhos, também para ver a minha reação, coloca a mão sobre o nó do seu lenço. Lentamente desata em jeito de provocação. Desfaz as voltas e puxa-o do pescoço para o seu colo.

 

- Então mostra-me o que fazes com o lenço…

- Como eu quiser?

- Sim, como quiseres.

 

Pego no lenço e, sem surpresas, tendo em conta o nosso passado, cuidadosamente vendei os seus olhos.

 

Sentei-me à frente e agarrei o seu pé esquerdo. Levemente massajei, dedo a dedo, comprimindo, torcendo e alongando. Com os polegares pressionei a sola, dos dedos ao calcanhar. Repliquei no pé direito.

- Vira-te para baixo e levanta os pés. - Carinhosamente solicitei.

- Tão bom - Suspirando.

- É só o princípio. 

 

Sem resposta rodou sobre a cama e levantou os pés.

Subi as sua calças até ao joelho expondo os seus gémeos. A partir do calcanhar pressionei-os repetidamente e alonguei-os. 

Ao perceber que as calças não permitiam chegar à coxa comentei baixinho com uma sugestão implícita:

- Não será fácil passar daqui.

 

Virou-se para cima e discretamente soltou o botão das calças, concedendo implícita autorização.

 

Com todo o cuidado desci as suas calças, expondo muito lentamente todas as suas pernas.

Coloquei a mão, com cuidado e precisão, sobre a barriga para que se deitasse. Pausadamente abri cada botão da blusa. Afasto a blusa deixando-a deitada, em todo o esplendor da sua lingerie, expectante, acariciando multiplamente o seu corpo com toda a leveza. Nenhuma área íntima fora tocada, apenas a pele exposta, aproveitando a sua maior sensibilidade por estar privada da visão.

 

Viro-a, mais uma vez, e percorro as coxas e costas com mão pesada. Faço com que todo o peso da viagem se dissipe. Subo e desço e num dos percursos "acidentalmente", mas com velado consentimento, desaperto seu soutien. Abrando até terminar a massagem. Gentilmente levanto-a à minha frente. Sobre os ombros, com a pontinha dos dedos afasto as alças do soutien até cair. Silenciosamente dou um passo atrás e retiro toda a minha roupa ficando apenas em boxers. Avanço e fecho um firme abraço para ficar pele com pele. É delicioso senti-la esmagada contra mim.

Encosto toda a minha rigidez na sua barriga confessando o meu estado de desejo.

Aos poucos encosto-a à cama até ficar sentada. Retiro as calcinhas que restam vestidas e sento-me por trás, de pernas afastadas a bem encostado nas suas costas.

As minhas mãos percorrem lentamente o interior das suas coxas e contornam seu peito. Aos poucos apertam o cerco à sua intimidade. Acariciando os mamilhos enrijecidos e relembro as nossas conversas online.

- Como é que te dizia nesta altura?

- Dizias que querias…

- O que queria. - Desejando que o dissesse com todas as palavras.

- Que me querias saborear.

 

Docemente deito-a na cama. Denunciando a minha intenção.

Coloco-me em frente e afasto suas pernas de forma que a sua intimidade fique totalmente exposta. Levanto seus braços para que fique mais submissa e mordisco seus mamilos. Adoro a textura.

Lentamente a língua desce até à barriga sem pausar. Mordisco agora o interior das suas coxas. Sinto o seu delicioso aroma enquanto se torce tentando desviar para si a minha boca. Com a pontinha da língua toco levemente no seu ponto mais sensível. Insisto diversas vezes. Sinto que se dilata insubordinadamente. Quero sentir a sua humidade, quero saborear o seu gosto a mulher.

Procuro o seu interior e a atrevida língua explora-o sem pudor. Entra, sai, roda. Saboreia cada gota da sua excitação e explora a sua profundidade. Um, duas, três ...muitas vezes. Contrações denunciam o seu descontrolo. Enquanto fica encharcada e indiscretamente ultrapassa o limiar do prazer.

Não me deixa continuar, não tem força para mais. Puxa-me para cima e abraça-me intensamente. 

Desato o lenço dos seu olhos suavemente.

Encosto à tangente os meus lábios nos seus.

- Podemos ficar por aqui, hoje? Estou tão cansada. - Quase pedindo desculpa por não poder retribuir.

- Claro que sim. Precisas descansar.

- Prometo que te recompenso.

 

Pouco depois vesti-me e, pronto para sair, beijo sua testa.

- Vem me buscar amanhã à mesma hora, - Pediu discretamente.

 

Cumprindo o estabelecido, no dia seguinte, lá estava na hora definida. Jantamos por perto. Na volta subimos juntos e, ao entrar no quarto, parou-me

 

- Espera cinco minutos. - Colocando o cartão do quarto no meu bolso. 

 

Desci à receção, com a imaginação a voar. Após os cinco minutos, contados ao segundo, aproximo o cartão do trinco. Aquele estalinho que destranca a fechadura soa claramente. Rapidamente entro e fecho a porta atrás de mim e deixo o casaco na cadeira.

Apenas a ténue luz, vinda da porta semiaberta da casa de banho, ilumina Maria, sentada na cama, de costas para a mim, no lado oposto, com uma única peça de roupa no corpo: o lenço na cabeça, dobrado em triangulo e atado atrás da nuca sob o seu cabelo.

Era uma deliciosa visão que me deixou logo a ferver.

Silenciosamente aproximei-me.

Vira-se para mim, serena e confiante. 

- Estás espetacular. - Não me consegui conter.

- Gostas? - Suavemente perguntou.

- Adoro. Estás perfeita.

- O lenço está bem posto? - Sabendo que ainda mais me provocava.

- Perfeito. Porque escolheste dessa forma? 

- Para o cabelo não atrapalhar. - Subtilmente deixando no ar uma perversa sugestão.

 

Aproximei-me ficando mesmo à sua frente. 

 - Não está equilibrado estares assim. - Insinuando que estaria demasiado vestido.

- Tens razão. Queres corrigir-me?

- Penso que é preciso.

 

Calmamente, disfrutando cada momento, retirou, peça a peça, deixando cair no chão até ficarmos no mesmo estado.

 

Levantou-se e muito bem encostada a mim prolongou um apertado abraço.

- Gostei tanto ontem. - Sussurrou ao meu ouvido.

- Que bom que gostaste. Não se esgotou.

- Mas, hoje quero ver-te.

- A fazer o que? - Muito intencionalmente piquei.

- A saborear-me… Mas antes eu. - Sentando-se lentamente na cama.

 

Dos pés à cabeça explorou, com os dedos, cada centímetro. Com atrevimento, não deixou de parte nenhuma zona, mesmo que fosse mais escondida. 

A sua boca percorre-me na mesma rota até se encontrar com a minha rija vontade envolvendo-me lentamente.

Aquela morna humidade dos seus atrevidos lábios levam-me à loucura. Recompensa-me, como prometido na véspera, dando sentido ao lenço que lhe prende o cabelo para não atrapalhar.

Com uma leve pressão sobre os ombros abrando-a carinhosamente.

Encosto-a na cama, preparando para "vingar-me" perversamente. Ao seu ouvido aviso, com a nossa secreta expressão: "Vou br... -te" 

Após voltas ao pescoço desço, a minha atrevida língua, até ao ponto mais sensível.

Como na véspera, delicio-me com o seu sabor a mulher, acaricio repetidamente o seu doce pontinho. Aos poucos aumento a intensidade criando pressão e depressão alternadamente.

Exploro tanto a periferia como a profundidade, controlando o seu estado para não perder totalmente o controlo.  Levo-a a ver as nuvens, saturadas de humidade, quase até a fazer chover. 

Deito-me sobre a cama, puxando-a sobre mim, fazendo dela cavaleira. A vista a partir de baixo é magnifica. De lenço no cabelo, tronco exposto, montada de frente para mim, com as pontas do lenço esvoaçando por causa do movimento e as mãos sobre o meu peito, encaixa-se muito lentamente. Primeiro a passo, disfrutando minuciosamente cada suave fricção, cada pressão, cada deslise, depois a trote, onde à vontade e o desejo se misturam com o ritmo de marcha, finalmente a galope onde o único objetivo é ultrapassar a fronteira do prazer e chegar ao pico.

Por mais que tentássemos prolongar o que prolongado já era, entramos em ebulição desmedida.  

 A sua missão em Bruxelas acabaria amanhã e o seu voo de volta, logo de seguida ao seu trabalho. Não a veria mais nesta cidade, mas abria portas para outros encontros.


QT


 



 







 








 
 








 

















 



 






















 



  










segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Guardar segredo

Desde a adolescência que a via e sempre a quis conhecer mais proximamente. É inesquecível a primeira memória de Susy. Franjinha, de calças de ganga justas, blusa descontraída e de lenço atado, ligeiramente de lado, no pescoço. 
Prima, cinco anos mais velha que eu, mantinha uma distância indiferente e falava comigo apenas por simpatia. Era inatingível. Inatingível mas inesquecível. Susy usava os seus diversos lenços sempre com elegância e perfeição. Parecia que gostava. No meu imaginário acreditava que era para me seduzir.  E resultava…  Na realidade, se fosse para seduzir, não seria seguramente a mim.
Mais tarde, acabado de entrar na universidade, com 18 anos recentemente atingidos, numa soalheira tarde, momento em que uma grande parte da família convive acabamos esticados em espreguiçadeiras, sob as árvores, no fresco e extenso relvado do jardim. Tinha o seu lenço na mão e óculos de sol a defender da forte luminosidade. O calor do sol fez com que apenas os dois resistíssemos, quando todos os outros se recolheram para o interior. Não sei se apenas por simpatia resolveu falar comigo do tema óbvio:
- Então conseguiste entrar na universidade?
- Consegui. - Orgulhoso respondi
- E que curso escolheste?
- Marketing.
- Ansioso por começar? - Cuidadosamente atando o seu rabo de cavalo com o lenço. 
- Sim, muito. - Tentando não denunciar o meu olhar.
- Vais gostar. É um mundo diferente.
- Espero que sim. - Sem conseguir desligar da forma sensual como atou o lenço.
- Isto não está bem! - Comentou, fora do contexto, desatando o lenço.

Mantive-me em absoluto silêncio enquanto a via a atar o rabo de cavalo novamente, sem conseguir desligar.
Os seus óculos de sol faziam com que não se percebesse para onde olhava. Davam-me uma falsa sensação de segurança, de que não seria descoberto.

- Gostas do meu lenço? - Disparou inesperadamente direta.
- Diz? - Tentando disfarçar.
- Estavas a olhar, todo o tempo, enquanto eu atei o lenço. Gostas?
- Fica-te bem. - Tentando me distanciar.
- Estás mais vermelho que o meu lenço. Diz-me mesmo que achas. Não te preocupes que sei guardar segredo. - Intrigada pela minha postura.
- Adoro. Ficas fantástica!… - Discretamente confesso.
- Não custou nada. - Provocou rindo, nada indiferente ao elogio.

A conversa ficou por aí. Não me ocorria nada apropriado para dizer e Susy, silenciosa, apenas disfrutava o bom tempo.
Subitamente levantou-se.
- Estou farta de estar aqui parada. Vou mostrar-te uma coisa. Anda comigo. - Desafiante mandou.

Entremos na casa e subimos aos quartos. Entrou no seu e abriu uma gaveta cheia de lenços.

- Senta aí. - Apontando para a cama e sentando-se ao lado.
- Gostas dos meus lenços? 
- Muito. - Sem saber onde me metia.
- Percebi que gostas. Queres vê-los melhor?
- Sim. - Com poucas palavras temendo dizer qualquer coisa que estragasse o momento.

Foi abrindo, um a um, perguntando a minha opinião. Retirava da gaveta e colocava na cama entre nós. Sobrepunha sobre o anterior.
Percebia-se perfeitamente que gostava de mostrar.

- Queres que ponha? - Claramente apreciando a atenção que lhe dava.
- Sim…

Desatou o lenço do rabo de cavalo. Escolheu um lenço azul escuro, médio de poliéster, dobrou em triangulo colocou na cabeça e atou sob o queixo, deixando a franja de fora.
- Gostas? Fico mais velhinha. - Em forma de gozo.
- Gosto.
- A sério? Mesmo desta forma?
- Sim… - Ainda sem mais palavras, limitado às respostas diretas.
- Gostas assim tanto de lenços?
- Sim. Mas depende de quem usa.
- Obrigada. Também gosto muito - Percebendo o subtil elogio após uma silenciosa pausa.
- Queres que ponha mais? - Sabendo bem a invariável resposta.
- Sim.
- Vou por de uma forma que uso muito no outono.

Lentamente tirou o lenço azul da cabeça e dobrou em fita com precisão, atando no pescoço com o nó para trás.

- Então gostas?
- Sim
- Só sim? Podias elaborar mais. Não te preocupes que isto não sai daqui. Nosso segredo.
- Estás muito bonita!
- Obrigada mas pareceu forçado. Diz-me o que pensas. - Acariciando repetidamente as pontas do lenço, com os dedos. 
- Estás deliciosa. 
- Juras?
- É um sonho. Um lenço em "choker" dá um ar sofisticado e confiante.
- Agora sim. Obrigada.

Adorava a atenção quase tanto como eu adorava vê-la de lenço. 

- Queres pôr-me um?
- Quero. - Tentando conter a minha excitação.
- Que bom! Escolhe um da gaveta.

Enquanto Susy desatava o lenço azul do pescoço, escolhi um lenço de fino tecido, pequeno, vermelho, com um padrão de bolinhas, muito suave e bem acabado.
Sou o seu atento olhar abri sobre a cama, alisei cuidadosamente com as duas mãos e dobrei em triangulo. 
Aproximei-me e, com precisão, atei na sua cabeça sob o seu rabo de cavalo, que ainda  estava preso apenas com elástico. Deixei a sua franja de fora.
Ajeitei minuciosamente cada cabelo que escapara e endireitei as pontas do lenço para não se sobreporem no pescoço.
Surpresa com o tudo o que vira, por não esperar todo este detalhe vindo de mim, olha-se ao espelho, claramente satisfeita com o resultado.

- Mas como é que foste capaz de me por assim o lenço tão bem? 
- Correu bem
- De certeza que tem muito mais que isso. Tens de me contar. Já sabes que é nosso segredo.
- Desde sempre adoro. Uma mulher de lenço é muito sensual. 
- O lenço transforma-a?
- Sim. Totalmente. Fica fantástica.
- Eu gosto tanto de usar lenços.   
- Eu sei.
- Já tinhas reparado antes?
- Todas as vezes que te vi usar.
- Jura?
- Sim.
- Isso é muito interessante.
- Ainda me lembro de ti a usar lenço há muitos anos.
- E sabes qual é a tua primeira memória minha a usar lenços?
- Sim
- Lembras-te mesmo? Qual foi? - Espantada pela atenção que não sabia que tinha.
- Vermelho, liso, médio, no pescoço, nó de lado, no jardim de baixo, desta mesma quinta, junto À varanda do muro, que dá para a estrada.
- Ah! Isso é uma memória impressionante. Adorava esse lencinho e usei muito assim. Acho que ainda o tenho. - Olhando para a gaveta.
- Foi inesquecível.
- Sinto-me elogiada pela atenção.
- Era-me impossível não reparar. Estavas fantástica. - Confessei de seguida.
- Está aqui! . Sorridente após encontrar no fundo da gaveta.
- Era esse mesmo.
- Queres que ponha?
- Quero.

Não conseguia afastar o olhar de Susy, enquanto abria o lenço e cuidadosamente o dobrava em fita e Susy não tirava os olhos de mim enquanto o fazia, para ver a minha reação.
Provocadora atou o lenço no pescoço muito lentamente. Colocou o nó de lado, como no passado e sorridente perguntou:
- Gostas?
- Adoro. Faz parte do meu imaginário ver-te de lenço assim.
- Então agora fico a usar este durante o dia.
- E não vão notar?
- Quem?
- O resto da família.
- Notar o que? Que eu uso um lenço no pescoço? Só tu é que notas.
- Estás espetacular. Acho que todos notariam. 
- Só aos teus olhos. - Claramente disfrutando a atenção exclusiva.
- Estás mesmo perfeita. - Não resisti a insistir.
- Agora contas-me mais coisas que gostas com os lenços?
- Mais coisas? - Um pouco perdido.
- Sim mais coisas que gostasses de fazer. Brincadeiras. Por exemplo: gostas de jogar à Barra do Lenço?
- Nem por isso.
- Então porque?
- Porque é muito exposto. Fico constrangido em mexer num lenço à frente de outras pessoas, principalmente rapazes. Temo que se detete a minha fantasia. Que me achem parvo.
- Eu acho querido. Não imaginava.
- Mesmo assim é desconfortável..
- Só brincarias com meninas, então?
- Sim. É muito feminino e sensual. Tudo o que for masculino está a mais.
- Acho que te percebo. E já brincaste com raparigas?
- Já aconteceu.
- Contas-me?
- Sim… Numa pequena festa de anos a aniversariante foi buscar um lenço para jogar à cabra-cega no quarto dela. Com ela a umas amigas. 
- Jogaram?
- Sim.
- E tu?
- Com o coração aos pulos, adorei.
- Não jogaste mais?
- Evitava sempre. Era demasiado para o fazer em público.
- A sério? A Cabra-cega? Rindo-se abertamente.
- O lenço a vendar os olhos é muito sensual.
- Nunca tinha pensado assim. Acho que andas a ver muitos filmes. - Não resistindo à brincadeira.

Subitamente agarra num lenço preto e dobrando rapidamente venda-me.

- Agora apanha-me. Provocou.

Assim vulnerável nada me restava senão tentar apanha-la. Não estava mesmo à espera.
Por mais que tentasse não a encontrava no quarto. Movia-se silenciosamente como um gato.

- És demasiado boa nisto. Não te encontro.
- Não podes falar. - Indicou, de trás, passados alguns minutos, denunciando a sua posição.

Rapidamente viro-me para a apanhar, sem sucesso.
Continuo a tentar e nada. Como não encontro num quarto tão pequeno?!
- Susy. - Chamo baixo.
- Susy. - Insisto.

Perdido, às apalpadelas, sento-me na cama.
- Susy, posso tirar a venda? Susy?

Sem resposta desato cuidadosamente o lenço. Estava só no quarto e Susy desaparecida.
É terrível. Deixou-me assim à procura de ninguém. Que figura! Quanto tempo terá passado?
Deixo o lenço na cama, junto aos outros saio e fecho a porta.
Lá fora, no relvado lá está ela sentada na conversa. Vou tentar perceber o que se passou.
- Olá. - Comentou mal me viu.
- Olá… - Respondi ainda atordoado.
- Por onde andaste? Ainda agora falávamos disso. - Irónica questionou
- Por casa. - Sem mais nada poder dizer.
- Perdeste-te la dentro? - Insistia propositadamente.
- Não. Oriento-me sempre.
- Então deves ter ficado às escuras. - Fazendo subtil e secreta referência ao nosso jogo. 

Não estávamos sós. Não tinha hipótese de retaliar a provocação, à frente de toda a gente. Era tão subtilmente perversa e claramente se divertia. Para além de gostar de ter a atenção sobre ela.
Mal teve hipótese, num momento em que estivemos sós garantiu:
- Não te preocupes que o teu segredo está muito bem guardado. - Apesar da constante provocação.

Durante essa semana usou mais lenços que era o costume. Outras primas ingenuamente reparavam mas nunca ficava sem resposta. Nem elas faziam ideia.
Algumas vezes discreta e irresistivelmente me convidava a vê-la colocar lenços. Não me vendou mais. Confessava, sem complexos, que gosta de ser o centro das atenções. Principalmente quando sente que os meus olhos brilham ao usar os lenços, nestas passagens de modelo privadas, onde era a estrela.

Suzy fazia parte do grupo, juntamente comigo e as primas Manuela e Maria que gostava de acordar cedo e ficar sentados nas espreguiçadeiras, no relvado sob a fresca sombra das árvores, em descontraída conversa.
Numa dessas manhãs ousou, intencionalmente, usar o lenço vermelho das bolinhas, dobrado em fita e atado no cabelo. Sabia que, no meu discreto silêncio, ia reparar em cada movimento. 

- Há muito que não te via prender o cabelo assim, Suzy! - Comentou Maria
- Pois não, fica muito bem no teu cabelo escuro. - Reforçou Manuela
- E tu gostas? - Virando-se para mim, atiçando-me.
- Não percebo muito disso. - Evitando qualquer resposta.
- Rapazes. Só querem perceber de futebol. - Espicaçou Manuela, de seguida.
- Claro. - Concordei sumariamente só para não parecer afetado.
- Mas não há vergonha em dizer se gostas ou não. - Insistiu Suzy.
- Sim. Fica bem. - Friamente devolvi para disfarçar que fervia. E Suzy bem sabia.

A conversa não se ficou por aí e, passados uns momentos, Suzy levanta-se e chama as primas.
- Meninas, em vez ficarmos apenas sentadas vamos fazer uma brincadeira.
- Que brincadeira? - Questionou Maria.
- Vamos jogar à Cabra-cega aqui na relva. - Retirando o lenço do cabelo.
- Cabra-cega?! - Coisa antiga. Mais uma vez Maria.
- Antiga mas divertida venham. - Enquanto desatava o nó do lenço.

Maria e Manuela levantaram-se enquanto eu discretamente e em absoluto silencio, atrás dos meus óculos de sol, me enterrava cada vez mais na espreguiçadeira, embora desejasse vê-las a jogar usando aquele lindo lenço.

- Quem vendamos primeiro? -  Perguntou Manuela agora entusiasmada.
- Ele. - Apontando-me o lenço, Suzy prontamente ordenou.

- Eu???!!!!. Estou cansado. Não tenho jeito, fico a ver - Tentando, apavorado, me escusar de qualquer forma.
  
- Anda também, será divertido. - Pediu Maria.
- Qual é o problema? Junta-te a nós. - Insistiu Manuela.
- Ouviste-as. Levanta-te e vira-te. - Novamente ordenou.

Sem solução, que não me comprometesse, lá me levantei tentando manter o ar de "toda a normalidade". Suzy perversamente sorria com ar de vitória. Como se insinuasse: "Agora desenrasca-te".
Bem que a olhei de lado, condenador, embora de forma a que não se notasse, mas entretanto já o lenço se aproximava dos meus olhos. Sinto o suave tecido a apertar e o nó a deixa-lo bem fixo. Só tento manter a postura para que nada do meu descontrolo se note.
Todas me chamavam, provocavam e, neste estado, nem me aproximar conseguia. Atrapalhado, por diversas vezes, caia na relva, sujeito aos seus estridentes risos. A sua diversão seria muito maior que o esperado.
Quando lá conseguia apanhar uma delas e a podia vendar nem apreciava suficientemente, visto ser apanhado em segundos e ter voltar ao meio. 
O tempo passava depressa e acabamos por parar. Quase por mais por pena da minha falta de jeito que pela hora.
Docemente Suzy desata o lenço dos meus olhos e volta a colocar como fita no seu cabelo, com um indelével sorriso nos lábios.

Mais tarde, quando não havia mais ninguém à volta, não resistiu.
- Não sabia que eras tão divertido.
- E eu não te conhecia assim tão maléfica.
- Confessa que adoraste.
- Mas foi demasiado perverso.
- Estás implicitamente a confessar.
- Só um bocadinho
- Eu percebi bem. Mas ninguém mais sabe. Fica descansado.
- Fico. Acho eu
- Queres que volte a mostrar-te os lenços?
- Sim. Mas só entre nós.
- Prometido.



QT